Um ensaio sobre Inteligência Artificial, Capitalismo e o próximo estágio do desenvolvimento humano
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Um ensaio sobre Inteligência Artificial, Capitalismo e o próximo estágio do desenvolvimento humano
“As grandes transformações da humanidade não ocorreram apenas quando novas tecnologias surgiram. Elas ocorreram quando a sociedade construiu novas infraestruturas capazes de transformar profundamente a forma de viver, produzir, aprender, desaprender e conviver.”
Vivemos um daqueles raros momentos em que talvez seja possível perceber uma mudança histórica enquanto ela ainda acontece.
Os acontecimentos sucedem-se em velocidade impressionante. Novos modelos de Inteligência Artificial, investimentos bilionários, chips cada vez mais poderosos, gigantescos data centers, computação em nuvem, satélites, robótica, biotecnologia e tantas outras inovações ocupam diariamente as manchetes e capturam nossa atenção.
Tudo isso é extraordinário. Mas talvez ainda não seja o mais importante.
Duas leituras recentes me levaram a essa reflexão.
A primeira foi um artigo publicado pelo Brazil Journal, inspirado nas reflexões do historiador econômico Sven Beckert, professor de Harvard, ao sugerir que o capitalismo atravessa uma profunda transformação e que talvez estejamos assistindo ao encerramento de um ciclo histórico e ao nascimento de outro.
A segunda foi um provocativo post de Sandro Benelli, publicado no LinkedIn. Segundo sua análise, seis empresas - Meta, Google, NVIDIA, OpenAI, Anthropic e SpaceX - deixaram de disputar apenas mercados. Elas passaram a construir a infraestrutura tecnológica sobre a qual poderá funcionar boa parte da economia mundial das próximas décadas.
Ao ler essas duas reflexões, imediatamente recordei o artigo publicado na Folha do ABC em 2018, antes da pandemia.
Naquele texto, defendia que a transformação digital somente faria sentido, se fosse acompanhada pela transformação humana.
Na época, essa percepção parecia apenas uma reflexão de longo prazo. Hoje, talvez tenha se tornado inevitável. A pandemia não criou essa realidade; apenas acelerou uma trajetória que já estava em curso.
Foi então que duas perguntas passaram a me inquietar:
Estamos assistindo apenas a uma revolução tecnológica?
Ou estaremos diante do nascimento de uma nova infraestrutura civilizatória?
As infraestruturas que moldaram a humanidade
Ao observarmos a História, percebemos que o desenvolvimento humano sempre esteve associado à construção de grandes infraestruturas.
A primeira delas foi a própria natureza: terra fértil, água e energia. Ela tornou possível sobreviver.
Mais tarde surgiu uma segunda infraestrutura: estradas, pontes, portos, ferrovias, energia e saneamento. Ela tornou possível conectar.
Na sequência consolidou-se uma terceira infraestrutura: capital, crédito, bancos, empresas e mercados. Ela tornou possível prosperar.
Nas últimas décadas construímos uma quarta infraestrutura: internet, computação, dados, redes, conectividade e Inteligência Artificial. Ela tornou possível potencializar o conhecimento humano em uma escala jamais imaginada.
É justamente essa infraestrutura que hoje continua sendo ampliada pelas grandes empresas globais de tecnologia.
Nada disso representa um problema. Ao contrário. O capitalismo demonstrou extraordinária capacidade de gerar inovação. As Big Techs produziram avanços extraordinários para a ciência, a medicina, a educação, a comunicação, a produtividade e a economia.
Ignorar essas contribuições seria intelectualmente injusto. Talvez, portanto, a questão não seja o capitalismo nem a Inteligência Artificial. Talvez a verdadeira questão seja outra.
Como explicar que uma humanidade capaz de construir a mais sofisticada infraestrutura digital de sua história ainda conviva com bilhões de pessoas sem acesso à educação de qualidade, saneamento básico, conectividade significativa, trabalho digno e oportunidades reais de desenvolvimento?
Nunca produzimos tanta riqueza. Nunca produzimos tanto conhecimento. Nunca produzimos tanto poder computacional. Porém, talvez nunca tenhamos produzido tão poucas oportunidades proporcionais.
Esse talvez seja o maior paradoxo do século XXI.
A hipótese
É exatamente nesse ponto que nasce a hipótese central deste ensaio.
Talvez estejamos diante da necessidade de construir uma quinta infraestrutura.
Não uma infraestrutura física. Nem econômica. Nem digital.
Mas uma infraestrutura voltada ao desenvolvimento humano: a Infraestrutura da Dignidade Humana.
Ela não será construída com servidores, chips, satélites ou algoritmos. Será construída por educação de qualidade, letramento digital, aprendizagem ao longo da vida (lifelong learning), governança, boa gestão, ética, confiança, transparência, inclusão, instituições fortes, colaboração e propósito.
Talvez toda infraestrutura construída pela humanidade tenha servido para ampliar capacidades.
A Quinta Infraestrutura terá uma missão diferente. Ampliar possibilidades humanas.
A primeira hélice da dignidade humana
Essa hipótese também nos leva a revisitar o próprio conceito da quádrupla hélice da inovação.
Durante décadas concentramos nossas expectativas nos governos, nas empresas e na academia. Mais recentemente, reconhecemos a importância da sociedade organizada.
Talvez o século XXI reserve à sociedade organizada um papel ainda maior: deixar de ser apenas a quarta hélice da inovação para tornar-se a primeira hélice da dignidade humana.
Essa sociedade organizada é composta por institutos, fundações, movimentos colaborativos, entidades empresariais, organizações sociais, distritos e ecossistemas de inovação. Todos esses agentes podem e devem contribuir, para aquilo que nenhuma tecnologia conseguirá produzir sozinha: desenvolvimento humano.
Um pingo d'água
Essa percepção dialoga profundamente com as quatro iniciativas que vimos desenvolvendo no Instituto Brasil Digital - IBD, por meio do Movimento Brasil Digital para Todos - BDT, da Academia Brasil Digital, do Congresso Brasil Digital e do Prêmio Brasil Digital Ozires Silva, em suas 22 edições, uma homenagem ao fundador da Embraer e um dos grandes protagonistas da inovação tecnológica brasileira.
Temos plena consciência de que tudo isso representa apenas um pequeno pingo d’água diante da imensidão do oceano.
No entanto, toda transformação estrutural começa exatamente assim: com ideias, pessoas, organizações e pequenos movimentos capazes de inspirar grandes mudanças.
Talvez...
Talvez o maior investimento das próximas décadas não deva ocorrer apenas em Inteligência Artificial.
Talvez deva ocorrer também em Inteligência Humana.
Talvez estejamos vivendo muito mais do que a Era da Inteligência Artificial.
Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova infraestrutura civilizatória.
Não construída pelos governos. Não construída apenas pelas Big Techs. Não construída exclusivamente pelos mercados.
Mas construída por milhões de pessoas comprometidas com um futuro em que tecnologia e desenvolvimento humano caminhem lado a lado.
Porque, no final, toda grande infraestrutura construída pela humanidade teve um propósito: sobreviver, conectar, prosperar e potencializar.
Talvez tenha chegado o momento de construir aquela que permitirá incluir.
A QUINTA INFRAESTRUTURA.
Quem a construirá?
Fundador e Diretor da ASPR e Vice-Presidente do Instituto Brasil Digital
Presidente do Conselho do SiNEco - Sistema Nacional de Ecossistemas do Brasil Digital para Todos
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